Caravana

O Estado do Fandango

Chegamos ao Paraná, e, ao contrário das previsões, fazia bastante calor. Alugamos o carro e fomos primeiro para a cidade de Paranaguá, que abriga, além de um dos portos mais importantes do Brasil, o ritmo do Fandango. Fomos conhecer o mestre Waldomiro, tocador de Adufo, instrumento precursor do Pandeiro, que trabalha no mercado de mariscos.

Foi chegar e “seu” Waldomiro me deu logo uma ostra pra comer. Fresquinha, ele mesmo havia colhido. Comi doze. Eu, Rodrigo e Tiago. A conversa foi transcorrendo mansa e naquela conversa marcamos um encontro com o mestre Brasílio, naquele dia mesmo, às 7:00 horas.

Ficamos rodando por Paranaguá e na hora do encontro lá estava ele, com sua bicicleta. Fomos batendo papo e filmando enquanto ele falava que as gerações mais jovens já não se interessam tanto por essa cultura, e que os velhos mestres, como Brasílio, Romão e ele próprio, acabariam morrendo sem conseguir transmitir essa tradição.

Tomamos um café então com Brasílio, que manifestou o mesmo pesar. Disse que o Fandango antigamente era tocado até com duas colheres, quando nada havia, e mostrou pra gente. Eles tocaram vários toques… “batidos”… como eles falam. Eu perguntei quantos havia e eles disseram que mais de 20! Tocaram a Chamarrita de 8 e o Dandão. Falaram na Tonta, Céara, Passeado, Anú… um monte! O toque do Adufo é muito característico e difícil de ser executado (eu não toco pandeiro mesmo…).

No dia seguinte fomos até Morretes, cidade próxima, que também pratica o Fandango.

Lá a coisa foi diferente. Encontramos com a D. Laurice, que toma conta do Grupo de Fandango Professora Helmosa. A Professora Helmosa reuniu os mestres de viola, nos anos 70 e revitalizou, assim, o fandango na região. D. Laurice disse que ela se metia no meio dos matos e juntava o pessoal mesmo.

O Fandango era dançado nos salões aristocráticos de Portugal e veio para o Brasil com a corte. D. Laurice contou que se faziam, aqui no Paraná, os mutirões para construção de casas (pixiruns, como ela chama), e aí se fazia o “Barreado”, comida típica da região, e depois se dançava o Fandango. O que me lembrou as festas nordestinas. Antigamente quando o moço ia casar, juntava uma turma, fazia a casa de sapé e depois fazia-se um forró a noite toda para celebrar.

D. Laurice disse que consegue repassar a tradição para os seus jovens que dançam o Fandango e utilizam vestimentas características (antigamente saias e camisa branca, hoje com motivos florais e campestres), inclusive utilizando o tamanco, que sapateia e funciona como apoio de percussão.

Morretes é uma cidade linda e aconchegante. Com certeza uma cama gostosa para o desenvolvimento do Fandango, que ainda é dançado (ainda que de forma diferente) no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.

Obrigado à D. Laurice, e aos mestres Waldomiro e Brasílio, tanto pela aula, quanto pela paciência e persistência em manter essa cultura.

por: Daniel Gonzaga

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